Uma Ligeira Indisposição
São só coisas…deixa…
deixa….
deixa o silêncio percorrer os ponteiros enquanto chovem corpos.
deixa que aterrem já desfeitos…
deixa que o pó suba e não te deixe ver o sangue e os pedaços de gente lama.
deixa.te…
cego de vida e quieto…
ouves? (…)
é a guerra…
deixa que passe enquanto descobres o que fazer sozinho quando soltarem as pombas…
sentes? (…)
é o frio que te ferve os dias… o frio que te trespassa o corpo…
deixa.o…
já não há porque lutar…
back
Tanto que aconteceu… uns nasceram… outros morreram, outros aguardam no corredor da morte das batas brancas. Fizemos anos e festejámos… sorrimos por ser felizes e esquecemos tudo o que já tivemos. Chorámos… perdemos coisas… encontramos outras…aprendemos ainda mais. Aprendemos que os poetas são melhores que os integrados no regime que já passou… eu pelo menos aprendi que gostava que assim fosse… mas sei mais ainda… os saca-rolhas não servem apenas para abrir tinto com os amigos. Os amigos por vezes não passam de sombras na parede, porque a realidade afigura-se bem diferente. A noticia pode ser sempre a mesma desde que o povo de saca-rolhas nos olhos compre as palavras redundantes. O futebol é bom, o natal quente e a fome também é… quando nos lembramos de barriga cheia dos que morrem com barriga desfeita de nada. Corremos por caminhos desconhecidos e voámos por nuvens atribuladas que nos encheram de medo… a outros de vómitos e a alguns de lágrimas. E assim passou menos de um ano longe das indisposições… o resto ficou guardado em folhas abandonadas nas gavetas e em cadernos brancos, hoje já gastos e pesados de tantas palavras. As velas continuam acender-se por aí… em dias que os velhos cantam fados e sorriem por entre a barba amarela do tabaco. Haverá sempre um par de braços, haverá sempre canções lindas… haverá sempre… o que quer que seja para lembrar que tudo pode ser muito mais…
Nevoeiro
Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer –
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.
Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro…
É a hora!
É a hora!
Pessoa acabou. Cá para mim é uma boa forma de começar.
É a hora de parar os lamentos a arregaçar as mangas. Por “as mãos na massa”, acertar o passo, sorrir a vida e amar a terra. Amar com amor de fazer em vez de guardar. Afinar a voz e cantar a cantiga. Perceber que o azul o vermelho e o verde não são primários. Perceber que o passado conta história mas não abre caminho. Se andou o Sr.Luis sem olho a nadar o mundo para salvar a poesia porque não podemos nós deixar a sobrevivência para aprender a viver?
Copo Vazio
Este dia não estava aqui ontem. Provavelmente nenhum de nós estava. Talvez tivessemos estado apenas uma vez num qualquer sitio, tendo uma qualquer vida que apenas dessa vez foi em linha recta. Talvez tudo não seja mais que um eterno recomeço. Um recomeço ao dia em que decidimos existir. Voltamos sempre ao mesmo ponto. Não dizemos nós que é tudo um ciclo? Talvez seja. Um circulo bem pequenino. Um circulo tão pequeno que nos sufoca numa volta apertada. Demasiado apertada. Tudo se sucede. Nós mesmos somos uma sucessão. Os mesmos passos vazios. Mudam.se os sitios, permanecem as paisagens. As varandas, os montes, o nada, sempre o nada que insistimos em querer transformar em tudo. As memórias reduzidas a imaginação frágil do que queriamos ter passado. Talvez não existam copos meios cheios, se calhar estão todos completamente vazios. Cheios do nada que trazemos nos bolsos. Tantas vezes optimistas, tantas vezes felizes, tantas vezes verdadeiros. Ou tão poucas… não é a vida feita de contrários? Ilusões mentais, exercicios frustrados de neurónios prestes a explodir.
Somos sempre os mesmos. Podemos ser noutro sitio, mas nunca deixaremos de nos repetir.
Noutros Lugares
Diogo Infante – Noutros Lugares from Ricardo Barros Espírito Santo on Vimeo.
Não é que ser possível ser feliz acabe,
quando se aprende a sê-lo com bem pouco.
Ou que não mais saibamos repetir o gesto
que mais prazer nos dá, ou que daria
a outrem um prazer irresistível. Não:
o tempo nos afina e nos apura:
faríamos o gesto com infinda ciência.
Não é que passem as pessoas, quando
o nosso pouco é feito da passagem delas.
Nem é tanto que ao jovem seja dado
o que a mais velhos se recusa. Não.
É que os lugares acabam. Ou ainda antes
de serem destruídos, as pessoas somem
e não mais voltam onde parecia
que elas ou outras voltariam sempre
por toda a eternidade. Mas não voltam,
desviadas por razões ou por razão nenhuma.
É que as maneiras, modos, circunstâncias
mudam. Desertas ficam praias que brilhavam
não de água ou sol mas solta juventude.
As ruas rasgam casas onde leitos
já frios e lavados não rangiam mais.
E portas encostadas só se abrem sobre
a treva que nenhuma sombra aquece.
O modo como tínhamos ou víamos,
em que com tempo o gesto sempre o mesmo
faríamos com ciência refinada e sábia
(o mesmo gesto que seria útil,
se o modo e a circunstância permitissem),
tornou-se sem sentido e sem lugar.
Aonde e como? Aonde e como? Quando?
Em que praias, que ruas, casas e quais leitos,
a que horas do dia ou da noite não sei.
Apenas sei que as circunstâncias mudam
e que os lugares acabam. E que a gente
não volta ou não repete, e sem razão, o que
só por acaso era a razão dos outros.
Se do que vi ou tive uma saudade sinto,
feita de raiva e do vazio gélido,
não é saudade, não. Mas muito apenas
o horror de não saber como se sabe agora
o mesmo que aprendi. E a solidão
de tudo ser igual doutra maneira.
E o medo de que a vida seja isto:
um hábito quebrado que se não reata,
senão noutros lugares que não conheço.
JORGE DE SENA

